«Liga Russa vai ser a melhor do Mundo»
Publicamos na integra a entrevista que Nuno Dias deu ao jornal "A Bola" ao jornalistam Mário Rui Ventura
Treinador do CSKA faz balanço positivo dos primeiros meses na Rússia. Passou o Natal longe da família mas está de regresso a Portugal para o final de ano.
- Termina o ano no terceiro lugar do campeonato, a três pontos do Dínamo Moscovo. Que balanço faz da época até agora?
— Tem sido bastante positivo, uma vez que não somos nem de perto nem de longe das equipas com o orçamento mais elevado. O CSKA na época anterior classificou-se em 8º lugar, e a sua melhor classificação de sempre foi um 5º lugar, ou seja, penso que está a ser muito bom. Sabemos que o primeiro ano é sempre o mais difícil, uma vez que terá que existir algumas modificações quanto ao modelo de jogo, metodologia de treino, adaptação ao país, dificuldades na língua. Nos próximos anos creio que vai ser mais fácil para nós.
- Como foi passar a ceia de Natal num país tão diferente como a Rússia?
- Foi realmente muito difícil estar longe da família. Além de ter sido a primeira vez, foi também o primeiro Natal das minhas filhas, que fizeram 2 meses no dia 26 de Dezembro, o que me deixou ainda mais triste por estar longe. Tentámos manter algumas tradições Portuguesas, como o bacalhau cozido com batatas, couve, ovos, azeite e vinho tinto mas falta-nos a família.
- Como tem sido a adaptação ao país?
- Inicialmente pensava que iria ser mais difícil. Tinha algum receio da cultura, clima e alimentação, mas, ao contrário daquilo que eu pensava, até tem sido engraçado. A língua é de facto o maior obstáculo mas aos poucos vão começando a sair algumas palavras. Todas as pessoas do clube têm sido fantásticos no apoio e na forma como nos integraram nesta cultura. Relativamente à alimentação, tem sido uma agradável surpresa, principalmente ao nível das sopas, saladas e a carne.
- E a adaptação ao futsal russo?
- Em termos organizativos, penso apenas que a Associação de Futsal Russa, se melhorasse no que diz respeito ao calendário da época desportiva, ao nível da calendarização do quadro competitivo, pode vir a ter a melhor liga do Mundo. Em termos regulamentares o jogo tem mais 10 minutos que em Portugal. Outra diferença, na minha opinião benéfica, é a penalização no que diz respeito à acumulação de cartões amarelos. Em relação ao jogo em si, penso que todas as equipas são bastante bem organizadas, todas apresentam bastante qualidade, o que torna cada jornada totalmente imprevisível no que se refere aos resultados desportivos.
- O objectivo passa por ser campeão já esta época?
- Não. O presidente do CSKA, em termos formativos, pediu-nos para reestruturar o futsal do clube desde a formação até à equipa sénior. No que diz respeito à equipa sénior, não escondemos a nossa ambição e vontade em atingirmos a melhor classificação de sempre e entrar nos lugares de acesso às medalhas.
- A UEFA Futsal Cup é uma meta obrigatória para esse projecto?
- Para já não nos foi dito nada nesse sentido.
- O Dínamo é um dos clubes na final four e vai encontrar o Sporting. Que análise faz dessa equipa?
O Dínamo é uma equipa fortíssima. Possui jogadores individualmente muito capazes, internacionais brasileiros e também a base da selecção russa. O treinador Tino Peres é espanhol com grande experiência internacional. Em termos de modelo ofensivo são uma equipa extremamente bem organizada, bem trabalhada no que diz respeito a situações de estratégia e com um lote de jogadores que jogam juntos há muito tempo e que por conseguinte se conhecem muito bem.
- Que mudanças foram feitas no futsal do clube?
A grande mudança implementada foi essencialmente ao nível do modelo de jogo. Antes, o CSKA era uma equipa que defendia em linhas bastante recuadas e que fazia das transições a sua grande arma. Esta foi sem dúvida a grande mudança. Alterámos a organização defensiva, defendendo de uma forma mais pressionante com a nossa 1.ª linha a defender mais perto da baliza adversária. Isto implica obviamente alterações também na organização ofensiva, uma vez que, pelo facto de termos mais posse de bola, devido a esta forma de defender, obriga-nos a trabalhar mais o ataque organizado em detrimento das transições defesa/ataque. A inclusão regular de jogadores jovens da equipa B e equipa júnior nos treinos da equipa sénior foi também uma mudança implementada por nós.
- Como tem sido a reacção dos adeptos à nova realidade da modalidade?
- Todos os adeptos, seja de que clube for ou de que modalidade for, querem resultados. Deste modo, penso que a reacção dos adeptos tem sido boa, uma vez que a actual classificação agrada bastante a toda a massa adepta.
- Como é visto o futsal na Rússia?
- É uma modalidade em crescendo. Quando melhorar alguns aspectos organizativos a Liga Russa vai ser a melhor do Mundo.
- O Cardinal e o Ricardinho foram autorizados a passar o Natal em Portugal. Alguma razão para a excepção?
- Essa excepção deve-se exclusivamente a factores contratuais entre o clube e esses jogadores.
- Ricardinho apontou recentemente a metodologia de treino como um dos factores para querer sair do clube. Que diferenças existem para a realidade portuguesa?
Penso que estamos a confundir duas coisas: metodologia de treino e volume de treinos (número de treinos). Pelo facto dos jogos por vezes exigirem viagens longas e com fusos horários diferentes (chega por vezes a ser de 3/4 horas), é por uma questão de planificação benéfico abdicar de um ou outro treino. Por vezes não só é benéfico como também impossível de fazer de forma diferente devido aos transfers, aeroporto, respectivas viagens, etc. No entanto, várias são as vezes que inclusivamente treinamos no dia do jogo. O facto do quadro competitivo ser no mínimo estranho, com diversas paragens por causa das selecções, e depois com competição nos vários dias da semana e com pouco período de recuperação, é impossível a elaboração de um microciclo semanal padrão. Também o facto de em várias semanas possuirmos jogadores convocados para as selecções torna contraproducente realizar elevadas unidades de treino nesses momentos ou mesmo nos seguintes às competições internacionais em que os atletas estiveram envolvidos ao serviço das respectivas selecções.
- A saída de Ricardinho é uma perda fundamental para o CSKA?
- É obvio que sim.
- Saiu Ricardinho, chegou Eskerda. É o substituto?
- O Eskerda foi contratado como 4.º estrangeiro e nada tem a ver com o facto do Ricardinho sair ou ficar.
- Tem acompanhado certamente o futsal português. Que análise faz?
- Acompanho diariamente o futsal português através da internet. A diferença entre Sporting e Benfica e as restantes é muito grande. De facto existe maior competitividade a partir do 3.º lugar, no entanto, parece-me que a desistência de equipas que se classificavam normalmente para os play-off, como o Instituto, Fundação Jorge Antunes e o Boticas, associado a um desinvestimento de equipas como o Freixieiro e Belenenses, torna este campeonato mais equilibrado e competitivo, o que não quer isto dizer com mais qualidade.
- O mercado português vai continuar a ser primordial para reforçar o CSKA?
- Para já ainda é muito cedo para falar de contratações e de mercado para o CSKA